40 anos, 40 artistas | Zulmiro de Carvalho: crónica de uma escultura premiada

Esta semana, a oitava dedicada ao projeto “40 anos, 40 artistas”, o destaque recai sobre Zulmiro de Carvalho (n.1940) e a escultura em mármore e ferro, com uns generosos 400x50x50 cm, de 1982, que também integra a seleção de 73 obras de 68 artistas que farão parte da exposição “ARTE, RESISTÊNCIA e CIDADANIA: os artistas da Bienal Internacional de Arte de Cerveira e a Democracia” que a Fundação Bienal de Arte de Cerveira inaugura dia 19 de abril de 2018 na Assembleia da República, simultaneamente, no âmbito das comemorações do 25 de abril de 1974 e do quadragésimo aniversário da Bienal Internacional de Arte de Cerveira. A peça mereceu o Grande Prémio Escultura na III BIAC, realizada de 24 de julho a 31 de agosto 1982, e é exemplo dos caminhos da escultura de Zulmiro de Carvalho, que privilegiam a combinação de materiais em formas geométricas, minimais e elegantes.

A investigação e a crítica de arte contemporânea nacionais têm dado atenção aos artistas que, antes da Revolução dos Cravos, tiveram oportunidade através de bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian de estudar fora do país e de contactar com as vanguardas europeias que se fazem sentir, de forma mais acentuada, nos idos anos de 1960. Assim foi com Zulmiro de Carvalho que esteve em Londres, na St. Martin’s School of Fine Arts, entre 1971 e 73, tendo convivido e bebido influências de nomes como os de Philip King (n.1934), Anthony Caro (1924-2013), William Tucker (n.1933) ou David Annesley (n.1936). Poder-se-ia dizer que é herdeiro da abstração geométrico-minimalista de King, Caro e Annesley e que bebe no tratamento matérico de Tucker. Contudo, o apego ao material e o cuidado no seu tratamento vem da Escola Superior de Belas Artes do Porto (atualmente FBAUP), que Zulmiro frequentou, como aluno, entre 1963 e 68, tendo como mestres Lagoa Henriques (1923-2009), Gustavo Bastos (1928-2014), José Rodrigues (1936-2016), Alberto Carneiro (1937-2017), Barata Feyo (1899-1990), Ângelo de Sousa (1938-2011) e Jorge Pinheiro (n.1931), entre outros. Na lista, logo se encontram as referências aos artistas que criaram a marca da “Vila das Artes”, contudo, desde a sua criação, em 1978, que a Bienal Internacional de Arte de Cerveira se afirmou como um lugar de passagem obrigatória no currículo de novos e menos novos artistas.

Zulmiro de Carvalho assume funções como docente da ESBAP logo em 1968 e, no regresso de Londres, as ideias ferviam, aliadas a um desejo de mudança no ensino da escultura que, contudo, só irá oficialmente concretizar a partir na década de 1990, em colaboração com Carlos Barreira (n.1945) e Carlos Marques (n.1948), montando um atelier/oficina experimental (1993-1994), que esteve na base da tal reformulação.

Homem natural de Valbom, Gondomar, lugar ao qual sempre se manteve fiel, o artista construiu um currículo repleto de exposições em Portugal e no estrangeiro, prémios e obras em coleções como as da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa; da Fundação de Serralves, no Porto; do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso; do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante; da Alameda Carlos Assumpção, em Macau e ainda do Museu Britânico, em Londres, devendo ainda referir-se as várias presenças de obras suas em espaço público. Foi sempre professor e é também nessa descoberta do outro, através da partilha que a docência promove, que afirma ter conseguido renovar-se e dotar sempre de novidade a sua pesquisa plástica. O que mais impressiona na sua obra é o desenho limpo e cuidado que está subjacente à execução técnica de grande habilidade e perfeição. Os materiais variam e combinam-se: do ferro, ao bronze e ao aço, passando pelo mármore, a ardósia ou a madeira, constituindo, simultaneamente, objetos com sobriedade e magnificência. Em 1982, como sempre, a Bienal Internacional de Arte de Cerveira adivinhou-o na perícia e fez dele um dos seus maiores e obrigatórios. Recordar a obra de Zulmiro de Carvalho é homenageá-lo e desafiá-lo a continuar a fazer parte desta histórica.

 

Texto de Helena Mendes Pereira

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