Projeto “40 anos, 40 artistas” | Edgardo Xavier: um dos percursores das visitas guiadas em Vila Nova de Cerveira

 

Na última semana da exposição “ARTE, RESISTÊNCIA e CIDADANIA: os artistas da Bienal Internacional de Arte de Cerveira e a Democracia”, na Assembleia da República, damos enfoque, simultaneamente, a um dos seus protagonistas e uma obra que, à semelhança do que temos vindo a destacar, data de 1978 e pertence às muitas que foram desenvolvidas nos ateliers livres dos V Encontros Internacionais de Arte (5 a 12 de agosto de 1978), evento que serviu de prelúdio à I Bienal de Cerveira (5 a 31 de agosto de 1978). O seu autor, Edgardo Xavier, nasceu em Huambo, Angola, em 1946 e depois de estudar Medicina, optou pela sua vocação artística, dividindo-se entre a pintura, a escrita e uma intensa atividade como crítico de artes plásticas.

De 1978, além da pintura em acrílico sobre aglomerado de 89x72cm, que ora destacamos, recordamo-nos da presença de Edgardo Xavier, precisamente, no papel de crítico e dinamizador das visitas guiadas que se faziam à exposição. Como ele, também Eurico Gonçalves (n.1932) e o próprio Jaime Isidoro (1924-2009) protagonizaram algumas destas estratégias que, já à época, pretendiam aproximar os públicos da produção artística contemporânea e das novas vanguardas. As fotografias que apoiam o artigo desta semana destacam Edgardo Xavier nas visitas e também nos ateliers, nomeadamente no atelier de cerâmica em conversa com Marília Torres.

Edgardo Xavier havia de integrar ainda o júri da primeira edição da Bienal Internacional de Arte de Cerveira e estar na organização da II e da IV, respetivamente, em 1980 e 1984. Entre 1986/1987 e 1990 assume a direção da Galeria Tempo, em Lisboa. Foi comissário das três primeiras edições da Bienal Internacional de Óbidos e diretor artístico da I Feira Internacional de Arte Contemporânea do Estoril (2003), cargo que vem no seguimento de ter sido, entre 1980 e 2003, adjunto de direção na Galeria de Arte Casino Estoril. Escreveu ensaios, álbuns, livros e numerosos textos sobre artes plásticas e é membro da Associação Internacional de Críticos de Arte – A.I.C.A./Portugal. A sua obra plástica integra coleções de museus de Angola, Brasil e Portugal. Tem três livros de poesia original publicados: “Amor Despenteado” (2007), “O Canto da Pedra” (2009) e “Corpo de Abrigo” (2011), integrando ainda coletâneas de poetas da lusofonia.

O acrílico sobre aglomerado que ilustra a relação de Edgardo Xavier às primeiras edições da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, evidencia uma fusão de influências que vão do surrealismo ao cubismo e que, sobretudo, contêm a expressividade do gesto e de uma pintura de camadas de matéria, que deixa antever contornos sem, contudo, sugerir lugares de representação do real. Edgardo Xavier haveria de dedicar-se mais à escrita, nas vertentes da crítica e da poesia, contudo, a sua relação aos pincéis faz parte dos objetos da coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira e, acima de tudo, ajuda-nos a perceber que, há 40 anos atrás, em Vila Nova de Cerveira já se pensavam os públicos e a importância de tornar legível e apreensível o resultado do trabalho dos artistas.

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