Ainda a Coleção e os seus artistas | Juan Coruxo e a emergência da matéria

Juan Coruxo (ES)
“Carreteiros ó Alba”, 2017
Assemblagem
170x150x150 cm
©Luís Rocha

 

Há sempre uma exceção que confirma a regra e, neste caso, a integração de uma das obras que Juan Coruxo (n.1961) produziu em aço corten  na exposição “Volumes e interações na história”, patente no Mosteiro da Batalha até 29 de setembro de 2019, considerando que a mesma não pertence à coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira (FBAC), é a tal exceção de que falávamos. Não obstante, Juan Coruxo é um dos artistas cuja presença e colaboração em diversas iniciativas da FBAC, ao longo dos últimos anos, se constitui já como património humano e relacional, assinalando, também, o eixo de cooperação com a Galiza, esse sim, marca identitária da coleção, reflexo de uma história contada em 41 anos de momentos.

Juan Coruxo é, como se disse, natural da Galiza, de Vigo e a sua incursão no meio artístico tem sido resultado de uma enorme persistência e generosidade. O seu material de eleição é o ferro que aprendeu a dominar, uma vez que, profissionalmente, exerce funções como técnico numa metalúrgica. Desde o início da sua carreira (1995), tem sido um colaborador habitual de distintos artistas, ibéricos e de outras proveniências internacionais. A partir de 2000, as suas obras ganharam um estilo próprio cada vez mais aperfeiçoado, marcadamente abstrato, ainda que com sugestões formais autobiográficas. Tem participado em exposições individuais e coletivas e as suas obras integram já diversas coleções particulares e institucionais. As últimas edições da Bienal Internacional de Arte de Cerveira têm contado com a sua participação e foi da sua responsabilidade a produção das lembranças entregues na XIX edição, em 2018.

Juan Coruxo trabalha nos limites da emergência da matéria, manipulando as formas evitando, muitas vezes, recorrer à solda e exacerbando o princípio da moldagem e o processo de transformação mágica que os artistas emprestam às coisas humanas e mundanas. Exercita a sua condições de artífice em formas, predominantemente concêntricas, de inspiração astral, zoomórfica, mas de apelo minimal e geométrico. As suas obras assumem diferentes personalidades, exigentes de observadores atentos e diletantes, convidando à leitura de vulto redondo e, em alguns casos, com jogos sinestéticos e de movimento.

Na Batalha, a sua obra integra um conjunto de outra com apelo volumétrico e matérico que contrastam com a rusticidade da pedra e do gótico, levando o ADN industrial para um contexto patrimonial, convidando-nos a cruzar os tempos e a ler os ciclos da História. De reconhecimento merecido, ainda que não integrando a coleção da FBAC, a obra de Juan Coruxo é um bálsamo de referências e de honestidade intelectual, um sinónimo de amor à Arte e um reforço da preponderância da resiliência sobre todos os outros valores para singrar no mundo artístico.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

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