Ainda a Coleção e os seus artistas | A inquietação de Daniela Steele

 

Daniela Steele Sem título, 2011 Acrílico sobre tela 80×120 cm

 

Em 2017, a artista brasileira Daniela Steele (n.1964) foi notícia por criar um painel, que integrava a XIX Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC), constituído por 300 flores confecionadas com cerca de 1200 metros de papel higiénico da marca Suavecel, de Viana do Castelo. “Parede de Flores”, ainda que tratando-se de uma obra perecível e a tocar o efémero, evidencia o pop que marca o percurso da artista e a sua preferência pela criação de jogos plásticos monocromáticos. Não obstante, Daniela Steele faz parte da família da BIAC muito antes de 2017, sendo inclusivamente membro da Associação Projeto – Núcleo de Desenvolvimento Cultural, que organizou várias edições das BIAC. É entre Salvador da Baía e o Porto, onde mantém atelier, que continua a dividir a sua atividades como artista e que, muitas vezes, se estende à curadoria e à organização e dinamização de iniciativas relacionadas com as artes plásticas e visuais. A coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra, precisamente, duas obras da baiana, ambas realizadas no âmbito da Ação Coletiva de Pintura da XVI BIAC, decorrida entre 16 e 23 de julho de 2011. Tratam-se de dois acrílicos sobre tela (50x40cm e 80x120cm) de temática animal em que se estabelece o exercício de contraste do negativo da figuração com o padrão pop, ou mesmo kitsch, que marca o fundo.

Daniela Steele estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e expõe, coletiva e individualmente, desde 1991. O seu trabalho, para além de Portugal e do Brasil, já passou por países como Argentina, França, Grécia e Alemanha. A pintora exalta, regra geral, os valores da pintura monocromática, principalmente através do uso do alto-contraste em preto e branco com influências pop. Quando a cor invade o suporte, reforça o dramatismo da figuração que deambula numa certa ambivalência entre a agressividade e a ternura, inspirando-se em temas como o futebol, animais selvagens retratados em situações ternurentas e, claro, alguns temas de cariz mais político, nomeadamente as lutas pelas igualdades de direitos e oportunidades. Daniela Steele é, sem dúvida, uma ativista e a sua pintura, sob todas as formas, é uma forma de intervenção social. O retrato é outra das dominantes da sua obra e será talvez a dimensão em que mais se sente a temática pop, nomeadamente quando retrata personalidades do mundo do cinema ou da música.

Numa entrevista em julho de 2015, a autora afirma: “Sou muito inquieta. Gosto de fazer investigações em outros campos como iluminação, retratos em papel, cenografia, escultura com modelagem em barro e fibra de alumínio, pinturas com sobreposições de redes transparentes”. É esta inquietação que a faz perseguir o registo ilusório das formas, manipulando a perceção e a perspetiva e procurando que a pintura seja um encontro entre a estética e a mensagem. Daniela Steele é, por isso, uma daquelas artistas que aceita desafios e ultrapassa constrangimentos, que procura criar redes entre artistas e outros agentes do mercado da Arte, com o objetivo de afirmar a poesia da expressão e de nos convidar a optar, sempre, pelo belo.

 

« texto de Helena Mendes Pereira

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