40 anos, 40 artistas | Paulo Neves: variações matéricas

A obra de Paulo Neves (n.1959) estabeleceu desde sempre uma relação com a natureza, criando um vocabulário formal e compositivo que se mantém nas obras em madeira, pedra, ferro e nas variações em materiais plásticos e sintéticos, conferindo-lhe uma coerência e constância enquanto escultor que o catapultam para o lugar de um dos melhores da sua geração.

A personalidade artística de Paulo Neves cruza-se com o que conhecemos da sua biografia. Natural de Cucujães, freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis, fez sempre questão de se manter ligado à terra e é no silêncio do carvalhal da sua propriedade que a imaginação e a transpiração dão aso a uma produção intensa e regular que já é marca do espaço público em Portugal continental e ilhas, mas também de Angola, integrando coleções das mais prestigiadas em Portugal, Angola, Espanha, Bélgica, Brasil, Itália e Alemanha, destacando-se o Museum Biedermann, pela afirmação e crescimento da Alemanha como player fundamental do mercado de arte contemporânea do século XXI. Exposições são mais de uma centena, com a primeira individual em 1980 e a primeira coletiva em 1985.

Curiosamente, Paulo Neves frequentou, não a licenciatura em Escultura, mas em Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto (hoje FBAUP) e entre 1978 e 1981 conviveu e trabalhou com diversos artistas em vários países da Europa. Estes três anos de viagens e aventuras foram determinantes na sua construção enquanto indivíduo e na descoberta do seu eu artístico. Talvez a maior influência que sentimos na obra de Paulo Neves seja a de Alberto Carneiro (1937-2017), pela ligação de ambos à matéria e ao quadro conceptual do movimento land art.

Há esculturas em que a cor toma lugar, numa paleta viva de variação entre as cores primárias e as mais associadas da pop art. Com a cor, as composições escultóricas adquirem características instalativas e aumentam as nossas possibilidades de vinculação, ora aos rostos de sinais expressivos, ora às formas abstratizantes que resultam da manipulação experimental do material. A arte de Paulo Neves tem sobretudo preocupações formais e tecnológicas que o levam, nos últimos anos, a diversificar os materiais explorados mantendo a incisão (que itinera com os relevos) de velaturas e arestas, em movimento simétrico e repetitivo de rigor geométrico que nos cria labirintos ilusórios à perceção do olhar. Contudo, Paulo Neves acumula também no seu percurso obras em que foi capaz de interpretar temáticas social e politicamente delicadas, somando-lhes um quadro concetual e narrativo de enorme amplitude e intensidade. A exemplo, a obra inaugurada a 8 de agosto de 2017 no Funchal para assinalar o luto um ano depois dos terríveis incêndios que assolaram a ilha. Em “Aflição” Paulo Neves criou um conjunto escultórico recorrendo às árvores “que morreram de pé”, como me confidenciou.

Na última década aproximou-se das temáticas religiosas e tem produzido um conjunto de obras que fazem uma interpretação iconográfica, por um lado, do ideário católico, como também inovam nas possibilidades estéticas dos elementos eucarísticos.

O seu atelier, de tronco sobre tronco, é uma escultura em macro escala cheia de mundos dentro. É obrigatória a visita.

Em 1986, com apenas 27 anos, venceu um dos Prémios Aquisição da V Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 26 de julho a 7 de setembro. À época, o seu quadro formal estava já visível, contudo o tratamento da matéria era bem mais primitivo (ou visceral), menos apurado e menos intervencionado. É isso que dá robustez e novidade às duas peças de madeira em destaque (uma com 210x80x60 cm e outra com 230x60x40cm), no âmbito do projeto “40 anos, 40 artistas”, no tempo do regresso à pintura, com compasso marcado pela geração de artistas, nascidos na década de 1950 e ligados à Escola de Belas Artes de Lisboa, e por uma crítica que elogia o regresso aos suportes tradicionais, sacralizados, pondo travão às ruturas e vanguardas que haviam marcado a década anterior em Portugal.

Mas a Bienal Internacional de Arte de Cerveira sempre premiou a ousadia e, em 1986, não houve exceção. Em 2005 venceu o prémio aquisição Águas do Minho e Lima no âmbito da XIII BIAC e, em 2007, na XIV BIAC voltou a ser premiado, desta vez com o prémio aquisição patrocinado pelo grupo dst.

X