Projeto “40 anos, 40 artistas” | ANTÓNIO BARROS: palavra e performance

 

 

Pela segunda semana consecutiva, o projeto “40 anos, 40 artistas” cruza-se com as obras que integram a exposição “É tudo uma questão de performatividade”, comissariada por Elisa Noronha e patente no Fórum Cultural de Cerveira até 26 de maio de 2018. Desta feita, merece destaque Ex_Patriar, de António Barros (n.1953), um dos prémios atribuídos em 2013 no âmbito da XVII Bienal Internacional de Arte de Cerveira. Ex_Patriar trata-se de uma reflexão do artista sobre a emigração forçada a que se viram votados centenas de milhares de portugueses no contexto da crise económica que o país viveu recentemente. A obra, tomada no seu sentido simbólico, representa o cidadão de braços caídos, com o fato do trabalho vestido e preparado para o abandono da pátria. Perseguindo a linha do pensamento sociológica e a tendência plástica de António Barros, Ex_Patriar inscreve-se na narrativa identitária da Poesia Experimental Portuguesa, revisitada em pleno século XXI.

“A partir de meados da década de 1960, um grupo de artistas e poetas portugueses configuram, a partir da Poesia Visual, um momento de rutura que redefine os conceitos de texto e de objeto artístico fazendo coincidir um discurso poético com um discurso político e com a elaboração conceptual do espaço e dos objetos como transformadores da perceção e da sociabilidade.”, escrevia-se no texto da exposição que o Museu de Serralves organizou em 2012 sobre a “Poesia Experimental Portuguesa”. Marcada pela descoberta da poesia visual e concreta internacional, é publicada em 1964 a revista “Poesia Experimental”, organizada por António Aragão (1925-2008) e Herberto Hélder (1930-2015), e com colaboração de António Barahona da Fonseca (n.1939), António Ramos Rosa (1924-2013), E. M. de Melo e Castro (n.1932) e Salette Tavares (1922-1994), tendo ficado E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly (1929-2015) e M. S. Lourenço (1936-2009) identificados como alguns dos seus principais teóricos e autores.  A “Poesia Experimental” portuguesa tinha como carterísticas fundamentais a contestação da crítica literária dominante, denunciando a sua falta de adequação às novas formas e materiais do poema. Por outro lado, vai-se posicionar contra a repressão política generalizada que se vivia no país, considerando a crítica às práticas poéticas como subjugada à estética do medo vigente. Os autores da PO.EX (recorrendo ao acrónimo) apoiam a sua prática poética e, consequentemente plástica, em suportes teóricos, aproximando-se dos momentos concetuais que dominam o contexto cultural da época.

Herdeiro da tradição de Coimbra como um dos focos, no pós 25 de abril de 1974, das ações performativas (a par de Almada e do núcleo Encontros Internacionais de Arte/Bienal Internacional de Arte de Cerveira), António Barros segue os pressupostos formais da escola da PO.EX, numa atitude de incansável insatisfação com o contemporâneo em que se insere e procurando invocar virtudes estéticas que não são indiferentes às linguagens da poesia, da performance, mas também dos media e da publicidade, nos seus suportes e na sua força enquanto veículos que veiculam e vinculam uma mensagem. O percurso do artista, que vive e trabalha em entre Barcelona e Coimbra, está revestido de exposições nacionais e internacionais, merecendo destaque, em início de carreira e pela simbologia na historiografia da arte contemporânea portuguesa, as participações na célebre Alternativa Zero (1977), organizada por Ernesto de Sousa (1921-1988) e na PO.EX.80 (1980), também na Galeria Nacional de Arte Moderna, em Lisboa. A obra de António Barros tanto pode filiar-se na Poesia Experimental portuguesa, como no movimento internacional do Fluxus, já abordado em texto dedicado a Gracinda Candeias.

Ex_Patriar é, assim, um poema-objeto, género da poesia visual preferencial no percurso de António Barros, que recorre à poética do objeto encontrado e a intervenções que colocam em interação palavras e objetos que se alimentam da tensão entre a semântica social da palavra e a sua função referencial de nomeação. Ex_Patriar provoca-nos inquietação e força-nos ao exercício de memória coletiva recente sobre a nossa relação com o lugar de pertença, com o trabalho e com o futuro que não conseguimos prever. Descreve-se como um casaco negro de fato, vestido por camisola com texto estampado a branco, sobre um suporte negro em madeira lacada, com as dimensões de 70x50x10cm; inscreve-se nas releituras e novas gerações do movimento inicial da Poesia Experimental portuguesa mas sente-se como o confronto com a verdade incómoda que procuramos esquecer.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

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